sábado, 18 de abril de 2015

Dom Hélder Câmara em Perspectiva



Cleiton Oliveira[1]

Estão sendo divulgados dois textos de puro embate a pessoa de Dom Helder Câmara, que em alguns pontos, beira à desonestidade intelectual e à falta de rigor de análise histórica.
Um dos textos “Quem foi realmente Dom Helder Câmara?”[2] do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO) e o outro; mais antigo “Dom Helder Câmara – uma retrospectiva de fatos”[3] da editora Permanência.
A questão não é defender Dom Helder integralmente. Vejo que se ele não foi um dissimulado na defesa que fez da esquerda, foi no mínimo, um “inocente útil” deste credo – mas prefiro pensar que sua preocupação social, seu cristianismo o levou a isso (na década de 1930 pronunciou uma série de palestras em vários locais, mas, sobretudo, na Academia Brasileira de Letras sobre a temática do comunismo – “comunismo e a família”, “comunismo e a mulher” etc., como nos atesta o jornal integralista A Offensiva da década de 1930).
Penso que a intenção do texto, em especial o da Editora Permanência, é de afronta a D. Helder Câmara, que no calor dos embates daquele momento trata-o de fascista, comunista, desonesto e oportunista. Mas apresenta um perfil um pouco mais brando, quando trata de sua participação no Centro Dom Vital, senão vejamos: “Cerca de 12 anos Helder Câmara foi assistente eclesiástico do nosso Centro Dom Vital, a associação de escritores católicos presidida por Alceu Amoroso Lima, da qual saíram Gustavo Corção e a maioria dos sócios em 1963. Quando Alceu Amoroso Lima, juntamente com Helder Câmara, já mostrava inequívocos sinais de progressismo e esquerdismo.”
Então, ele foi nazi-fascista no integralismo, comunista enquanto bispo e enquanto membro do glorioso Centro Dom Vital ele apresentava apenas “sinais de progressismo e esquerdismo”?!
Outro ponto interessante é a questão da nota promissória do Banco da Guanabara e para onde foi o dinheiro: “esse dinheiro foi usado por D. Helder Câmara para suas promoções demagógicas irresponsáveis como, por exemplo, construir prédios de apartamentos para favelados, no meio de áreas residenciais mais abastadas, como a Praia do Pinto.” Não justificando o uso indevido do dinheiro, (se é que houve), mas a postura elitista, em que a questão não é o uso do dinheiro em si, mas a construção de moradia para favelados em “áreas residenciais mais abastadas”. Que cristianismo é esse da Permanência pretende atribuir lugar de pobre e de gente “abastada”?
O texto da Permanência é um pouco mais brando/honesto do que o do IPCO. Tenho bons amigos ligados ao IPCO (fundadores) e mesmo aos Arautos, mas vejo-os em demasia elitistas e muitas vezes liberais ao estremo em política. Esquecendo-se que o materialismo de “esquerda” e de “direita” foram condenados igualmente pela Santa Igreja.
E, neste ponto, não poderia deixar de apresentar aqui, a análise justa e inteligente do Padre João Batista de A. Prado Ferraz Costa, que em artigo – “Dom Hélder Câmara e Plínio Salgado”[4] – nos deixa este primor: ‘Na verdade, há muito católico conservador que não tem nenhum apreço pela doutrina social da Igreja (e aqui só me refiro aos documentos de Leão XIII a Pio XI) e só a cita no que diz respeito à condenação do comunismo. Mas quanto às diretrizes dos pontífices sobre uma organização sócio-econômica corporativa passam por alto, porque defendem o capitalismo liberal baseado na partidocracia dita democrática. São esses católicos ‘conservadores’, que tanto enaltecem os EUA, que acusam movimentos políticos como a Ação Integralista de ser nazista’.
Nas entrelinhas do texto da Permanência me parece ser negado a D. Helder dar uma esperança ao povo humilde dentro do cristianismo. Destaca que “é verdade que não lhe é permitido mistificar um povo humilde, simples e ainda dotado, em grande parte, de uma religiosidade católica”. O povo católico pode viver à míngua, enquanto, uma elite maçônica suga tudo deste povo (qualquer reivindicação social soa como comunismo).
Mas o drástico aqui, e principalmente no texto do IPCO, é o anti-integralismo – Integralismo esse que eles parecem desconhecer de todo ou assume e reproduz apenas a análise esquerdista de embate a este grande movimento político brasileiro – o texto do Padre João faz uma justiça à pessoa de Plínio Salgado, mas tem falhas na abordagem das ideias de Miguel Reale e Gustavo Barroso.
Outra questão é o caso do não acolhimento de Dom Helder, e penso de todo o ideal católico, pelo governo Castelo Branco. Se formos à história vamos ver que o comandante Mourão Filho, velho integralista, que deu pontapé inicial do levante civil/militar, e tão logo teve o acolhimento popular e a não resistência. Foi posto para o escanteio e substituto pelas rapinas ligadas aos interesses norte-americanos de enfrentamento ao comunismo que perpassou para a tutela econômica. A indústria brasileira (estou falando de tecnologia nacional) teve um grande retrocesso no governo militar, que priorizou as corporações multinacionais (eu acolhendo a análise da esquerda aqui, pois estão corretos nesta abordagem).
Penso que já estou me estendendo em demasia e não me cabe aqui, no momento, apresentar e debater todos os fatos que são muitos.
Mas no que pese a análise rasteira do integralismo, penso que deveriam ter no mínimo o bom senso de consultar as fontes integralistas.
O Padre João Batista me parece que consultou apenas ao livro de Plínio Salgado “A Vida de Jesus”, que é realmente um primor, e se não estou equivocado, reproduz a tese de Francisco Martins de Souza[5].
O texto da Permanência penso que esteja dentro de um contexto de refrega e se não estou equivocado, Dom Hélder estava vivo e poderia se defender.
Agora o texto do IPCO é fruto, além deste posicionamento de combate, de uma desonestidade intelectual. Poderiam, no mínimo, consultar os escritos de Dom Helder da década de 1930 e os escritos de Plínio Salgado[6] – e como os de Salgado são muitos deixo minha indicação: “Palavra Nova dos Tempos Novos” de 1936, “Despertemos a Nação” de 1935, “A Quarta Humanidade” 1934, “Psicologia da Revolução” de 1933 e “O Que é o Integralismo” de 1933, apenas indicando parte de sua produção dos anos 30, a produção posterior apenas aprofunda e amadurece o contido nestas obras.
Neste ponto, o Padre João Batista se equivoca em atribuir a Salgado um amadurecimento espiritual apenas em seu exílio em Portugal, se esquecendo que sua “Vida de Jesus”, publicada em 1942, já havia sido iniciada no Brasil, inclusive tendo seus originais confiscados pela polícia, quando da prisão de Plínio pelo Estado Novo.
Agora se D. Helder defendeu Che Guevara e todo o movimento de guerrilha, sabemos hoje, que ele estava completamente equivocado merecendo nossa ressalva neste ponto.
Pelo Bem do Brasil!
Cidade de Goiás, 18 de abril de 2015.




[1] Professor da rede estadual de ensino de Goiás.
[5] SOUZA, Francisco Martins de. Raízes Teóricas do Corporativismo Brasileiro. Rio de Janeiro, Ed. Tempo Brasileiro, 1999.
[6] Neste ponto é interessante o artigo de Plínio Salgado “Equívocos de Dom Helder”, disponível no blog populista (grande trabalho de Resgate do companheiro Guilherme Jorge Figueira): http://historia-do-prp.blogspot.com.br/2015/04/plinio-salgado-critica-publicamente-d.html, acesso 15/04/2015.

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